A Igreja na Pós-Modernidade (Parte 3 – Final)

Aqui cresce o desafio, pois apenas diagnosticar o problema e responder a ele é uma parte, mas não é tudo, temos que ter uma proposta transformadora, redentora para o mundo em que vivemos.

A igreja muitas vezes peca por diagnosticar corretamente o problema, mas deixa de dar o remédio certo. Diagnosticamos o problema e não agimos corretamente, esse é um desafio a igreja atual, somente dar a resposta de que Deus é a solução das necessidades do homem é uma verdade, mas como essa mensagem vai atingir os corações que nem sequer buscam uma solução em Deus para os seus dilemas.

A religião tem se mostrado destituída de poder diante do atual momento em que vivemos. Por isso o cristianismo histórico responde com a verdade, por meio de uma proposta que realmente redime o homem.

Meu desafio diante de tudo o que temos visto é delinear uma linha que mostre a verdade, atingindo o cerne do homem pós-moderno e assim mostrando que a igreja ainda vive em meio a todas essas mudanças que temos enfrentado. Esta é a parte final e posso com certeza dizer a mais difícil, pois apresentar um modelo é parte da trajetória, para uma mensagem e um estilo transformador.

Em primeiro lugar temos que reconhecer que a igreja perdeu-se no tempo e não acompanhou o desenvolvimento das sociedades, principalmente as ocidentais, assim perdemos o bonde da história e temos demorado muito para reencontrá-lo. Assumindo nossa omissão diante de um mundo em transformação deixamos de levar as pessoas uma proposta transformadora, assim o cinismo tomou conta da nossa sociedade, a desconfiança em uma verdade absoluta é total e a desesperança assumiu o controle do mundo hodierno.

Se nos perdemos diante das transformações e dormimos nos anos 50, acordamos em uma sociedade totalmente nova composta por indivíduos que não creem mais em um Deus e sequer são religiosos como no tempo dos nossos pais, ou a geração passada. E que segue tendo constantes mutações as quais temos que acompanhar sem mudar o conteúdo da verdade que pregamos.

Em segundo lugar, temos que reconhecer que somente falar não surte efeito total, as pessoas querem ver a fé na prática, no andar diário em uma vida transformada que valha a pena ser copiada. E este poder para praticarmos a verdade nos foi dado por meio do Espírito Santo.

Infelizmente o descrédito com a verdade não é somente resultado do tempo que vivemos, chegamos a esse ponto pelo fato de que muitos que dizem pregar a verdade vivem de maneira contrária a essa verdade, assim as pessoas que nos observam atentamente não atentarão para uma mensagem que se torna fazia pelo fato de não ter o exemplo de vida daquela verdade.

Diante dessas duas colocações introdutórias temos que construir um sistema sólido e com uma proposta clara, que leve as pessoas a serem persuadidas pela mensagem do evangelho de Jesus Cristo, pois o evangelho não perdeu a sua relevância, quem perdeu foi à igreja. Essa proposta visa recuperar o poder impactante da igreja, por meio da impactante pregação do evangelho.

Seguem-se abaixo algumas idéias para serem colocadas com a intenção de gerar uma mudança que cause impacto no nosso tempo, algumas idéias, principalmente para os temas, são tiradas do livro de Howard Snyder, Vinho Novo Odres Novos.

  • Escolhidos Para Este Tempo

Este é o nosso tempo, tempo de fazermos a diferença, se ficarmos olhando para os percalços do caminho não vamos produzir nada que nos leve a uma mudança radical neste tempo em que vivemos.

Lembro-me que certa vez li a seguinte frase (não me lembro em que livro) “as melhores coisas, nos piores tempos”, essa frase, para mim, sintetiza bem o espírito que deve reinar em nossas igrejas, podemos colher os melhores frutos em tempos realmente complicados.

Fomos chamados para esse tempo, chamados para penetrar no mundo com uma proposta realmente transformadora, o evangelho de Jesus Cristo, mas para isso o evangelho deve fazer parte da nossa vida, deve primeiro penetrar em nós, e este evangelho não está entrincheirado em um prédio ou uma construção antiga, mas sim na vida daquele que leva a mensagem.

Creio que neste novo tempo temos que nos despojar de antigas marcas que foram colocadas como paradigmas da igreja, talvez nosso impacto esteja sendo menor, pois, tal como o judaísmo, ficamos centralizados em um prédio e com métodos rígidos. Nossas igrejas estão ensimesmadas e esquecem que fomos chamados para servir neste tempo.

Urge uma necessidade de sairmos detrás das cortinas e entrarmos no palco da história, dividindo o espaço que tem sido ocupado somente por aqueles que não têm uma mensagem verdadeira e sequer acreditam em uma verdade. Cada vez mais institucionalizamos a religião, quando na verdade ela deve estar preocupada em agradar a Deus e servir ao próximo, assim cumprindo o mandamento de amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Assim sendo, a igreja deve buscar o perdido e se ocupar em leva-lo a uma vida de intimidade com Deus buscando uma vida transformada através de um discipulado sério, que deve ser levado as pessoas, não necessariamente por ministros preparados em um seminário teológico, mas por todos aqueles que sendo instruídos na Palavra e vivendo uma vida de santidade e retidão podem ensinar (discipular) os novos crentes.

  • Uma Nova Visão Para Igreja

“… do ponto de vista teológico, os edifícios da igreja são supérfluos. Eles não são necessários para a função sacerdotal porque todos os crentes são sacerdotes e todos têm acesso direto, a qualquer hora e em qualquer lugar, ao Grande Sumo-Sacerdote”. Começo com essa afirmação para que entendamos que a igreja deve ter uma nova visão de si mesma, pois na verdade a igreja deve ter uma nova dinâmica. Não temos que esperar que as pessoas venham à “igreja”, mas a igreja é quem deve ir ao mundo.

Assim a igreja passa a buscar as pessoas nos seus nichos e não esperarmos que eles venham até nós. A igreja é um corpo e não um prédio, assim a visão da igreja não deve ser voltada para dentro, mas para fora. Mostrar que temos a verdade transformadora e libertadora.

  • A Transformação Bíblica da Igreja

Essa transformação passa por uma vida de comunhão do Espírito, é necessário que andemos de forma que as pessoas possam ver que existe entre o povo de Deus uma vida não impessoal, mas de proximidade, uma busca por uma estrutura mais íntima. Como o tempo pós-moderno é um tempo em que as pessoas estão vivendo separadamente, é importante a igreja viver em comunhão. Para que haja a comunhão entre os cristãos é necessário que haja primeiramente uma verdadeira comunhão com Cristo, por isso a igreja deve ter um forte apelo para o entendimento bíblico e ensino bíblico.

Devemos por meio da comunhão viver como povo de Deus, a base da igreja não é a manutenção da instituição, mas a vivência de um povo que exalta o grande e soberano Deus.

Tendo a mente de Cristo, adorando, testemunhando e vivendo em comunhão uns com os outros, além de termos a oportunidade de servirmos uns aos outros por meio do uso dos nossos dons espirituais. Snyder define essas verdades chamando-as de Ecologia da Igreja, conforme ilustrado no quadro abaixo:

Modelo de Snyder sobre a ecologia da igreja

 Se vivermos este modelo temos grandes chances de mostrar ao mundo pós-moderno que a verdade que cremos é verdadeiramente verdade, e que vale a pena viver esta vida, mas isso só acontecerá se a igreja abrir mão de olhar somente para dentro e começar a olhar também para fora, vendo a necessidade deste mundo e mostrando que ela é o único sistema racional de vida. Assim começamos uma transformação Bíblica para a igreja do século XXI e que está confrontando o tempo pós-moderno.

  • Uma Nova Estrutura Para Igreja

Surge então a necessidade de uma reestruturação da maneira como encaramos a igreja, e essa reestruturação está bem delineada no modelo vivido pela igreja primitiva. Vivendo uma comunhão verdadeira, cuidando uns dos outros, torando-se responsáveis uns pelos outros e aprendendo prestar contas uns aos outros.

Sendo as reuniões de pequenos grupos (lares e discipulado pessoal) como a estrutura básica da igreja, e não seus programas e prédios, pois se procedermos dessa forma a igreja tende a perder seu impacto em nossa cultura.

A casa como célula básica da igreja pode fazer com que nossa sociedade que está vivendo individualmente veja que esta unidade de maior proximidade, sem nenhuma estruturação prévia, é um grupo que realmente se ama e que deseja o bem estar dos outros. Nessas estruturas básicas do lar o evangelho pode ser pregado de maneira vívida e com maior eficácia.

Não dispensamos os prédios da igreja, eles ainda têm uma grande importância, para as reuniões de oração, cultos de adoração e celebrações diversas, e ainda para reuniões específicas ou ser usado os espaços de salas para servir a comunidade na qual ela está inserida, fazendo cursos diversos, por exemplo.

Na vida pós-moderna a igreja pode ser muito relevante, se ela pregar um evangelho verdadeiro, ter uma mensagem verdadeira, viver em união e praticar os dons espirituais como forma de ajudar ao próximo ela estará se tornando reestruturada para vencer os desafios deste nosso tempo.

Diante de tudo o que podemos apreciar, chegamos ao entendimento de que temos um enorme desafio à nossa frente. Essas mudanças não ocorrerão do dia para a noite, temos que investir tempo em oração e esperar que Deus sopre o seu Espírito nos ossos secos.

Acredito que somente uma “nova reforma”, um verdadeiro avivamento levará a igreja de volta para o seu verdadeiro papel, o de glorificar a Deus por meio de sua obra nesta terra. O corpo de Cristo deve ser vivo, deve levar uma mensagem viva de transformação, mas não somente levar é preciso viver.

Chegamos ao limiar de um novo tempo e a igreja ainda é a coluna e o baluarte da verdade, por isso temos que responder a todos a razão da esperança que há em nós. Em todo o tempo e em todo o lugar temos que refletir a Glória de Cristo e anunciar a mensagem de salvação para um povo perdido.

Deixe um Comentário

Digite o texto e Pressione Enter para pesquisar no Site