A Igreja na Pós-Modernidade (Parte 1)

INTRODUÇÃO

Entender a pós-modernidade não é uma tarefa das mais fáceis uma vez que não existe um marco temporal preciso que configure seu início. Afirmamos, como muitos, que esta passagem – do período moderno para o pós-moderno – aconteceu com o simples perpassar do tempo, não havendo uma ruptura clara do passado com presente. Este fato, por si só, já é uma característica desta nova era – muitas rupturas com os antigos sistemas que vão acontecendo em um período de tempo, não em um tempo determinado, como p.e, a revolução industrial, que foi a transição para novos processos de manufatura e se deu no período entre 1760 e algum momento entre 1820 e 1840.

É inegável que os tempos estão mudando de maneira rápida e radical, o que, muitas vezes, nos atordoam quando, por exemplo, tentamos acompanhar as transformações que nos são impostas diariamente.

Essa mudança, que ocorre de forma simultânea em todo o mundo, tem transformado a realidade da igreja e intensificado o desafio de manter viva a chama da verdade, uma vez que já não existe mais o abismo entre o certo e o errado, como nos tempos de outrora. Não que a verdade deixou de existir ou que o erro se aproximou do que é certo, o problema é que vivemos em uma sociedade pluralista e que as “minhas” verdades podem não ser as “verdades” de outro grupo e vice e versa. Desta forma, diante deste desafio, a Igreja deve dar uma resposta contundente e verdadeira, sem a presença de nossos pressupostos não bíblicos ou filosofias, de forma que se evidencie não mais uma tênue linha, mas um oceano entre a verdade e o erro.

Nosso grande desafio, portanto, é mostrar que a verdade – a bendita Palavra de Deus – é tão relevante para nossa sociedade como foi para a sociedade de outrora; que existe um Deus Soberano e que o conhecimento – na sua multiplicidade – não anula a Sua existência, ao contrário, reforça Sua Presença e atuação. Cabe também a igreja responder às inquietações do homem pós-moderno, independentemente de seu contexto – sejam elas sociais, culturais, políticas ou religiosas. Esse é o nosso tempo; para isso fomos chamados.

​ENTENDENDO O TEMPO EM QUE VIVEMOS

A amplitude do significado da era pós-moderna é muito extensa e, portanto, de difícil explicação e definição única. Os avanços são tão rápidos que a definição dada hoje sobre a pós-modernidade pode ser outra amanhã. O que nos chama atenção é que são tantas facetas que têm sido moldadas neste período que nada é de fato uma verdade absoluta. Segundo David Lyon, “para compreender as principais correntes do pensamento pós-moderno, é interessante recuar no tempo e interrogar os pensadores que anteciparam a pós-modernidade” [1].

Um dos que mais contribuiu para o pensamento pós-moderno foi Friedrich Nietzsche que anunciava que o niilismo (aniquilamento ou descrença absoluta) estava à porta, isto por volta de 1888, diante do contexto do iluminismo (Iluminismo é um conceito que sintetiza diversas tradições filosóficas, sociais, políticas, correntes intelectuais e atitudes religiosas), este homem ganhou notoriedade a partir do momento em que decretou a morte de Deus, ou seja, os conceitos de Nietzsche giravam em torno da realidade ou da falta dela ou ainda de múltiplas realidades. Diante deste quadro, do Deus que morreu, que é muito parecido com o que temos na pós-modernidade, não podemos ter mais certeza de nada, todas as verdades podem ser verdade, isso se dá de acordo com o grupo que a pessoa faz parte, ou seja, a verdade está no grupo e não na racionalização dela.

Ainda poderíamos citar muitos outros homens que moldaram o pensamento pós-moderno como: Martin Heidegger, que foi seguidor dos ensinos de Brentano, Dostoievski e Kierkegaard. Heidegger desejava uma reconstrução numa base pós-cristã, onde nem a metafísica nem o humanismo era a solução, mas uma nova descoberta do pensamento moderno sem a presença de Deus.

A pós-modernidade, portanto, ganha contornos do iluminismo, mas avança ainda mais para uma cultura subjetiva em torno de tudo o que existe que leva o homem a uma total descrença em Deus ou qualquer coisa que se diga religioso. Assim não se tem mais esperança nem na religião, nem no homem, nem mesmo a tecnologia e seus avanços têm dado ao homem o sentimento ou a certeza de que estão vivendo em um mundo melhor.

Diante disso podemos concluir que a pós-modernidade é um conceito ainda de muitas faces, sem uma designação clara do que de fato ela é ou representa. Assim o que pode dizer é que a pós-modernidade é uma condição sócio-cultural que exige a inexistência de um Deus ou de uma verdade absoluta e que em sociedades capitalistas estão tendo um maior avanço. Este avanço se dá em uma sociedade capitalista pelo fato de que o que move é o consumo desregrado e total daquilo que é importante para que as pessoas se sintam satisfeitas consigo mesmas e com o grupo do qual fazem parte.

Desta forma o mundo pós-moderno é um mundo de diversas verdades, mas sem nenhuma verdade absoluta. O único absoluto que se crê é que não existem absolutos. O que se não percebe é que se a única verdade é que não há verdade absoluta, isso já se torna um absoluto, ou seja, essa realidade vai contra os seus próprios raciocínios.

Neste tempo em que vivemos observamos o surgimento de diversas “tribos” as quais têm suas próprias verdades, que necessariamente não são as mesmas verdades defendidas por outras “tribos”, e mesmo assim podemos olhar os pontos que nos unem e não o que nos separam, a um sentimento de unidade em torno de algo que podemos juntos nos apegar. É esse o sentimento pós-moderno, este é o sentimento do nosso tempo.

Esta realidade impregnada pelas já citadas influências adentram os nossos arraiais cristãos, como bem sintetizou Don Cupitt: “(…) hoje, entretanto, todo aspecto narrativo cosmológico ou grandioso da religião entrou em colapso. Sabemos, se é que sabemos alguma coisa, que não existe um esquema racionalmente ordenado de coisas lá fora, nenhum significado da vida inserido em uma narrativa grandiosa já preparado onde nossas vidas possam ser enquadradas, Sabemos, se é que isso é possível, que não há literalmente nenhuma ordem sobrenatural, não há literalmente nenhuma vida após a morte. É só isto, e, como todos sabem, quando você morreu, morreu, e ponto final.”[2]

Por corolário, notamos que verdadeiramente estamos entrando numa era pós-cristã. Esse é o espírito pós-moderno; a melhor maneira de se eliminar “um Deus tirano” é excluí-lo da religião, pois assim não nos sentiremos acusados de sermos pecadores merecedores do castigo eterno. Essa é a religião pós-moderna. E, assim sendo, não há razão para moralidade ou qualquer outro sistema de valores para a igreja ou qualquer área da vida.

Logo, a igreja não pode ficar apenas observando ou “entrando na onda” do pós-moderno. Não podemos viver como se nada estivesse acontecendo; temos que olhar o futuro e aproveitar as oportunidades que se apresentam neste momento, esse é o momento da igreja se levantar de defender a Verdade que propagamos.

Diante deste cenário que estamos inseridos qual deve ser a nossa resposta? Isso é o que veremos no próximo texto por mim escrito, avaliaremos qual é a proposta da igreja diante desta sociedade pós-moderna e pós-cristã, pois além de respondermos é necessário que apresentemos soluções.

[1] David Lyon, Pós-modernidade, pg. 17

[2] Don Cupitt, depois de Deus, pg. 107

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